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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

AZIZ NACIB AB'SABER Nova Escola

Revista Nova Escola edição 139 Janeiro de 2001.

Professor emérito da USP acredita que a educação deve se basear no conhecimento regional e na descoberta de talentos
Paola Gentile

Conhecer detalhadamente o território brasileiro foi um dos grandes objetivos de vida de Aziz Nacib Ab’Saber. Ao longo de 75 anos — 58 deles ligados ao estudo da Geografia e da Geomorfologia — ele não só conheceu cada palmo de nosso chão como ajudou a descobrir e a classificar o relevo, relacionando-o com sua história, sua economia e sua gente. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas em Geoecologia.


Professor emérito e membro do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), ele acredita que uma educação eficiente só é possível quando o aluno tem intimidade com o lugar onde mora. Filho de um imigrante libanês e natural de São Luiz do Paraitinga (SP), Aziz Ab’Saber relembra nesta entrevista a importância que alguns professores tiveram na sua vida e conta histórias de suas viagens.

NOVA ESCOLA> Um dos papéis da educação é formar cidadãos. Como a Geografia pode ajudar?

Aziz Ab’Saber< A educação é o meio pelo qual a criança se integra ao processo civilizatório e à sociedade. Ela deve ter três bases: o domínio do saber acumulado, as oficinas de talentos e o conhecimento da região. É aí que entra a Geografia, com sua capacidade de ajudar o aluno a entender o local onde vive. Só assim ele poderá, mais tarde, atuar sobre esse ambiente. Por isso, todo professor precisa dominar seu entorno, sua população e seus problemas. Não basta saber o be-a-bá e usá-lo em leituras inconseqüentes de velhos livros didáticos.

NE> O que são as oficinas de talento?

Ab’Saber< São espaços didáticos cuja função é estimular as crianças em algumas direções. Eu insisto que o foco da educação deve ser o estudo de soluções para problemas regionais. Na beira do Amazonas, é fundamental pensar na melhor forma de navegá-lo; no sertão do Nordeste, cabe às oficinas refletir sobre como conseguir água o ano todo. No Pantanal, a questão é estimular as formas de economia que protegem a biodiversidade. Em todos os casos, o ideal é abrir caminho para unir o que as pessoas já sabem com o que podem descobrir, se forem incentivadas. A recuperação do conhecimento regional e um professor disposto a procurar e incentivar talentos podem mudar a realidade nacional. Esse é o papel do educador competente.

NE> Muitos professores já estão caminhando nessa direção?

Aziz Ab’Saber< No geral, ainda não. O mais comum é investir em escolas técnicas ou em alfabetização. É preciso ensinar o aluno a diferenciar, entre tudo o que se pode aprender, as questões que realmente interessam a ele a partir do ambiente em que vive. Entre os professores de Geografia, porém, vejo avanços no que diz respeito a conhecer a região.

"A Educação Básica deveria preocupar-se em incentivar o aluno a construir o conhecimento da região em que vive"


NE> O senhor propõe uma regionalização do ensino, o que contraria a Lei de Diretrizes e Bases e os Parâmetros Curriculares Nacionais...

Ab’Saber< Sim, eu faço uma crítica aos mentores desses processos formais. Fazer leis baseadas em índices de repetência e regras gerais para um país de escala continental, com sociedade desigual e necessidades diferenciadas, não leva a nada. Na minha opinião, o papel do professor de Educação Básica deve ser o de incentivar os alunos a construir o conhecimento da região onde vivem, desde os limites territoriais até as características geográficas, econômicas e políticas. Essas informações servirão para ele se localizar como cidadão e sempre servirão de base para qualquer estudo de espaços maiores, as chamadas macro-regiões. Nesse sentido, um estudante da Bahia precisa conhecer as outras regiões do país. Isso é importante, claro. Na verdade, é um conhecimento acumulado e, portanto, menos fundamental que os objetos de estudo imediato. Por tudo isso, repito: o primeiro passo deveria ser incorporar a filosofia do processo que se baseia no saber local, investir na formação dos professores e, só então, exigir resultados melhores.

NE> Como, então, deve ser a formação do professor?

Ab’Saber< Eu não concordo com o academicismo das universidades, que se enchem de conteúdo para currículo. Uma questão só deve ser escolhida para análise se tiver como finalidade a busca de soluções para ela. Como eu já disse, em Geografia isso está começando a se tornar comum. Por isso sou um geógrafo entusiasmado.
NE> Quem o influenciou na escolha da profissão?

Ab’Saber< Um professor de História do ginásio. Ele me mostrou que os processos históricos não estão desligados do chão e dos alimentos cultivados. Na faculdade, História e Geografia eram ensinadas juntas. Não tive dúvidas na decisão. Eu precisava estudar as duas ciências, refletir sobre espaços que modificavam-se através dos tempos e estudar tempos diferentes no mesmo espaço.

NE> Qual foi sua primeira excursão científica?

Ab’ Saber< No primeiro dia de aula o professor Pierre Monbeig organizou um trabalho de campo. Saímos de São Paulo rumo a Itu, Salto, Campinas e Jundiaí. Até então, meu conhecimento geográfico se resumia a São Luiz do Paraitinga e arredores. Pensando melhor, aquela não foi minha primeira viagem marcante. Quando eu tinha 5 anos, meu pai nos levou até Ubatuba. Fomos a cavalo pela velha Estrada do Café, que estava abandonada. Eu ia em um lado do jacá (cesto usado para levar alimentos no lombo de animais) e meus irmãos menores, do outro. Passamos pelas fazendas que rodeavam a cidade, entramos na zona de transição, com produção agrícola de subsistência, passamos por terras particulares, mas sem uso. Na trilha, conhecemos a floresta que precede a serra do mar. Pingava muita água das folhas, pois essa é uma região úmida, como todo setor de alto de serra. Ao fazer a excursão na faculdade, senti como se fosse a continuidade de um interesse que tinha brotado naquela viagem a Ubatuba.

NE> O senhor conhece o Brasil inteiro?

Ab’Saber< Conheço todos os domínios geográficos. Só não fui ao Alto Solimões e ao Sul da Bahia. Minhas viagens sempre foram aventureiras. Num Carnaval, ainda jovem, fui de trem com o Miguel (Costa Júnior, geógrafo) para Aragarças, na divisa de Goiás com Mato Grosso. Saí do mar de morros rumo ao Brasil Central: chapadões enormes, vales em forma de veio aberto, florestas em forma de galerias imensas. Três ecossistemas formando uma família de ecossistemas dentro do corpo geral. Foi uma descoberta maravilhosa.

NE> Quando o senhor conheceu o Nordeste, a região que mais mereceu sua atenção profissional?

Ab’Saber< Foi durante uma reunião da Associação dos Geógrafos, no Recife. Todos diziam que não havia nada para ver no sertão. Era essa a visão da época. Fomos a Campina Grande e Patos, na Paraíba. Saímos dos tabuleiros, entramos na Borborema. Em seguida, o sertão dos Cariris Velhos. Descemos pela banda seca do planalto. De repente, avistamos o sertão verdadeiro. Aquela enorme planura ondulada, revestida por caatingas, com algumas rochas pontilhando os espaços. Descobri que o que se chamava de alto sertão era, na verdade, o rebaixamento dos relevos da região. Fiz questão de visitar todos os outros Estados com áreas áridas. Concentrei-me no conhecimento dessa região para analisar, discutir e, principalmente, criticar as propostas erradas.

NE> Como a vida acadêmica ajudou no desenvolvimento de suas pesquisas?

Ab’Saber< Depois de concluir a faculdade, dei aulas em alguns colégios, mas logo comecei a especialização. Participei da fundação do Centro Capistrano de Abreu, que me abriu as portas para a Associação dos Geógrafos. Isso foi fundamental, pois me permitiu viajar, expor e publicar meus estudos. Além disso, aconteceu comigo um episódio que mostra como é importante o professor estar atento aos talentos de seus alunos. Kenneth Kaster, da Cincinatti University, estava na USP para um período de dois anos como professor convidado do curso de pós-graduação em Geologia e Paleontologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Ele era muito bom, mas tinha dificuldade de passar seu conhecimento das viagens de campo. Eu, quando repetia suas aulas para os colegas, acrescentava minhas observações. Reparando nisso, ele me chamou para conversar. Perguntou se eu era vaidoso, e, em seguida, se aceitaria o cargo de jardineiro, o único que estava vago no departamento, só para ser assistente dele. Pensei, pensei... e aceitei. Fiquei três meses no cargo, arrumando a biblioteca, aí passei para técnico de laboratório.

"A criação de vilas olímpicas nos campos onde as crianças jogam bola urbanizaria o entorno carente"


NE> E quando o senhor assumiu o cargo de professor?

Ab’Saber< Eu tinha problemas de saúde e os exames médicos não me deixavam subir na carreira. Fui técnico de laboratório de 1946 a 1965. Já era mestre, doutor e livre-docente quando me tornei professor assistente.

NE> O senhor hoje faz um trabalho diferente para um geomorfologista, estuda a periferia de São Paulo. Por quê?

Ab’Saber< Tenho feito isso por conta própria, desde o início do ano. Depois de várias discussões sobre menores em situação de rua, desperdício de alimentos e outros temas, alguns colegas me pediram para desenvolver um projeto para a periferia, a exemplo das vilas olímpicas construídas no Rio de Janeiro. Visitando aos sábados os lugares onde as crianças jogam bola na periferia, descobri que eles têm uma geografia. São terrenos públicos ou particulares, que podem virar minivilas olímpicas sem muito dinheiro. Basta plantar algumas árvores para delimitar o espaço, marcar as quadras e criar dois ranchos: um para mães com crianças pequenas; outro para adolescentes, com espaço para a prática de dança ou capoeira, por exemplo.

NE> Quem vai adquirir e assumir isso?

Ab’Saber< A própria comunidade, com apoio dos órgãos competentes. As minivilas podem estar ligadas às escolas, que são bem distribuídas na periferia. O prédio escolar fica reservado às crianças, aos professores e à transmissão do conhecimento. Os centros de vivência passam a ser usados pela comunidade e para educação informal. Eu também instalaria um fogão para fazer uma feijoada, um sopão, um evento social. A remodelação dos campinhos é o primeiro passo para a revitalização do entorno carente. Eu mesmo promovo eventos assim para testar. E dá certo. Com pouco dinheiro é possível mudar a geografia urbana.

NE> Como são suas aulas para essas crianças de periferia?

Ab’Saber< Primeiro converso com as mães, nos campinhos. Depois, trabalho com os filhos. Certa vez levei prancheta, papel e lápis e pedi para as crianças criarem um desenho qualquer. Assim conheço a realidade local. Na segunda aula promovo um passeio pelo bairro, partindo da escola ou da praça mais próxima, para observar o entorno, suas características e problemas. Peço que as crianças escrevam tudo o que vêem. E aí emprego todos os estímulos possíveis. Esse é o princípio da filosofia da escola nova: escolher a melhor maneira de incentivar os alunos e extrair o que eles têm de melhor.

4 comentários:

David disse...

Realmente o profº Aziz é uns dos maiores intelectuais da atualidade na geografia.

Muito boa essa entrevista.

Padre Marcelo

mariana disse...

REALMENTE.ISSO FOI O SUFICIENTE PARA UM TRABALHO MEU DE ESCOLA

Manuela disse...

O Professor Aziz é uma referência no estudo da Educação Para a Cidadania.Na minha universidade, por exemplo, usamos seus estudos de fundamental importância para aprimorarmos os conhecimentos neste contexto complexo e fácil ao mesmo tempo, que é a Cidadania.

Anônimo disse...

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