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domingo, 29 de julho de 2007

Ruy Moreira : A pós-modernidade e o mundo globalizado do trabalho

A PÓS-MODERNIDADE E O MUNDO GLOBALIZADO DO TRABALHO

Ruy Moreira

Para Armando Corrêa da Silva



Vivemos o pós-moderno. Uma fase pós de algo pouco clarificado. O que é o moderno de que o mundo de hoje é um pós? E em que consiste essa pós-modernidade, suas formas e o modo de vida que traz?

1. O pós-moderno

O pós-moderno é a ruptura com as metanarrativas. O rompimento com a forma de ler e explicar o mundo referenciada no conceito de totalidade. O mundo deixa de ser o universal metafísico da unidade, constância, regularidade, para tornar-se a diversidade, a fragmentaridade (a descontinuidade de Foucault?), o efêmero.

Então, uma vez que deixa de ser a totalidade, a razão global, o contexto, tem lugar o intertexto, o entrecruzamento de vários mundos. A idéia de um alguém que pensa o mundo como totalidade e nele intervém em termos de totalidade perde sentido, morrendo o sujeito. Junto com o sujeito, morre o projeto, projeto da revolução, projeto da história. E nessa medida da morte do sujeito e do seu projeto, desaparece o mundo como objeto do sujeito. Morre a relação sujeito-objeto. Morre a história.

Finda assim toda uma forma de representação de mundo referenciada em princípios e fundações. Não há mais fundamentos, raízes fincadas, lógicas totalizantes. Some o padrão, fica o múltiplo.

É a linguagem que ganha um novo sentido. A grande característica do pós-moderno é exatamente a maneira como se passa a entender a leitura. Toda forma de expressão e organização de mundo é texto. Todo meio e modo de representação é linguagem. Uma paisagem, uma pintura, um espaço vivido, são texto e intertexto, formas de linguagem.

Tudo libera a linguagem do horizonte estrito da razão e a aproxima do símbolo e do semiológico.

Significa isso que nos encontramos neste final de século XX num momento de transformação cultural de profundidade extraordinariamente ampla. E quando é a cultura que se encontra em processo de des-construção, o tema é o homem. Com as suas representações.

Daí a sensação de estarmos num momento parecido com o que a humanidade encontrou-se na época do Renascimento. Então, viveu-se uma ruptura na forma do olhar, a necessidade da humanidade colocar-se sob uma outra forma de atitude diante do mundo, relê-lo por completo, construí-lo sob uma forma distinta da medieval de antes.

Mas numa espécie de sinais trocados.

2. O moderno

O Renascimento é o momento do nascimento da modernidade (tomaremos o Iluminismo para referência da modernidade, mas recuando ao Renascimento para fraga-la no seu berço, combinando desse modo a periodicidade dos historiadores com a idéia de mundanidade dos filósofos).

Momento do nascimento também da manufatura (o dado inicial do nascimento do capitalismo). Não é gratuita essa simultaneidade.

A manufatura significa uma mudança, radical sob todos os aspectos para aquele tempo, nas relações do trabalho. Esta mudança consistiu em colocar para trabalhar dentro de um mesmo galpão artesãos que até então atuavam dispersa e individualizadamente nas oficinas, com a obrigação de realizar seu trabalho de modo integrado e sincrônico. Por trás dos acontecimentos está a expansão mercantil, que de certo modo é a origem do Renascimento, com sua necessidade de dispor de uma forma de produção de mercadorias de maior volume, que desse ao seu fluxo um horizonte mais amplo e sem os limites e obstáculos da produção artesanal. A manufatura é essa forma nova de indústria que aumenta fantasticamente a capacidade produtiva, a produtividade, e o volume das trocas, apenas pelo ato de reunir, dividir e sincronizar o movimento conjunto do trabalho dos artesãos. Ela não abole o trabalho artesanal. Rearruma-o, através da introdução de um sistema de controle e regulação cronométrica que virá a ser a essência da relação do trabalho capitalista e a ossatura por excelência da modernidade.

Com a manufatura, a humanidade entra verdadeiramente na história do sistema social baseado no lucro. O sistema cujo segredo é o controle, a administração dinâmica da economia, a contabilidade que regulariza. Porque não se trata para o capital de produzir o lucro em caráter esporádico, mas de empreendê-lo de forma regular e continuada, constante na geração, realização e reinjeção produtiva. O pressuposto é o capital ampliar-se sempre, o que só é possível na condição da produção regular, contínua, constante, ininterrupta do lucro, porque é o lucro o veículo da acumulação.

Mas repetição regular, constante e em caráter ampliado, supõe um mecanismo que regule e ponha o processo econômico em condições de ser administrado com eficiência. Controle da troca e controle da produção. Controle sob uma só mão, de modo a fazer da troca e da produção uma a função da dinâmica da outra. Não há mercadoria para ser vendida se não há mercadoria sendo produzida, o que significa que a produção deve ser posta em correlação com a troca. Controlar então o lucro, de modo a dar-lhe um ritmo de regularidade na geração, realização e ampliação é controlar a simultaneidade rítmica das trocas e da produção.

Como exercer-se o controle sobre campos tão diversos e que embora interligados se organizam em separado? Controlando o que todas estas partes têm de comum: o processo do trabalho. Controlar o processo do trabalho é controlar quem trabalha. Como fazê-lo? Controlando o tempo do trabalho.

E como controlar o tempo do trabalho se não há um método de quantificação? Chegamos ao fundamento da modernidade.

Não por acaso o tempo da manufatura é o tempo de Descartes. O filósofo que vai dar ao capitalismo em nascimento o que ele neste momento precisa: um mundo visto como um modelo matemático. Um casamento perfeito entre o que deve ser o mundo do trabalho manufatureiro e a cosmovisão que os homens generalizadamente devam passar a ter. E Descartes cumpre esse papel fornecendo uma coisa e outra: a matematização e a geometrização como relação orgânica do mundo.

Estamos diante do nascimento da matemática de relações exatas, das regularidades numéricas que se repetem com absoluta constância. Um dado essencial da cultura moderna, que não vem ao mundo neste momento por obra do acaso.

Quantificar o tempo do trabalho é instrumentar o seu controle. É contabilizar a quantidade da produção, do que se vai gastar para produzir, do que se precisa vender, do que vai render, do que precisa retornar, do que pode ficar como salário para o trabalhador, do que se quer de lucro para o capital, e, assim, do que se quer reverter ao ciclo ampliado da acumulação.

É a linguagem das categorias cientificamente precisas -- custo, produtividade, preço, salário, lucro, taxa da acumulação -- da economia política que está nascendo.

Porém mais que uma economia política, com o cartesianismo está nascendo uma nova cultura. Uma forma nova de percepção. Uma atitude nova diante do mundo. Que aparece primeiro na arte e começa por isso mesmo a partir da noção de espaço e de tempo. E só depois chega à manufatura.

Tempo era, até então, uma noção ligada ao ritmo de mudança da natureza (a sucessão das estações do ano, dos dias e das noites, a duração da vida). A noção de regularidade já está aí presente. Sabia-se que após o dia vinha a noite, após o verão o inverno. Que a natureza se comportava de um modo cíclico, rítmico. Mas se se sabia que a parte clara sucedia a parte escura, a noção de tempo não incluía a hora exata de aparecimento de uma e de outra, porque este era um aspecto variável, de um dia para outro, de uma estação do ano para outra, de um lugar para outro. Havia sucessão, regularidade, constância, mas não sentido matemático rigoroso de percepção do ritmo temporal da natureza.

Se servia para a cultura do trabalho da sociedade pré-industrial, uma tal noção de tempo não servia entretanto para as necessidades de uma sociedade capitalista. Pelo fato de que lhe é imprescindível o instrumento rigoroso do controle.

De modo que revolucionar a percepção do tempo aparece como o pressuposto do nascimento do capitalismo. O primeiro ato da criação de uma nova cultura do trabalho.

Entretanto, não existe percepção de tempo senão através da percepção do espaço. De modo que criar uma nova noção de tempo supunha assim criar uma nova forma de percepção de espaço. Era da observação do espaço que advinha a noção do tempo rítmico da natureza.

A noção moderna de tempo como ritmo rigorosamente matemático de sucessão de acontecimentos virá então da observação dos deslocamentos dos corpos na extensão do espaço celeste. Uma referência que já vem combinada à imagem do relógio, a máquina do tempo preciso.

Já de algum tempo avançava no mundo da pintura uma idéia geométrica de espaço, desenvolvida ao redor da noção da perspectiva e do ponto de fuga. E no âmbito da música, uma idéia do som como tempo de alternância de constâncias métricas. A idéia de espaço geométrico dos estilos de pintura e a de tempo métrico dos estilos musicais, se sucede a partir do século XIV no ocidente da Europa. Quando a nova indústria apresenta sua demanda de mecanismos matemáticos de controle, isto implicando uma cultura de espaço e tempo matemáticos, já este elo havia sido criado no mundo da arte. Da arte passa para o mundo geral do pensamento e daí para o mundo prático do mecanismo do relógio. E nesse passo se materializa então como controle cronométrico do trabalho.

Daí a importância da filosofia cartesiana no nascimento e constituição da modernidade, o mundo como encarnação do espaço-tempo geométrico da arte e materialização do espaço-tempo mecânico do relógio.

Não por acaso, o relógio mecânico, um instrumento de precisão, é a primeira máquina moderna. A forma de relógio que até então se conhecia era a de um sistema simples e mimeticamente reprodutivo do ritmo impreciso da natureza. Era o relógio da água, a clepsidra, baseado no fluxo da água; o relógio de sombra, baseado na projeção da luz do sol sobre uma placa no seu deslocamento celeste; ou o relógio de areia, baseado no fluxo de materiais muito finos. Reproduções de uma natureza comandada pelo inesperado, pelo espontâneo e pelo incontrolado: a água que o inverno podia congelar, a areia que a umidade podia empedrar, a luz que a nebulosidade podia abortar. Expressões de regularidades, não de repetições e constâncias exatas. Formas de controle solto, sem o poder de domínio rigoroso do tempo que a economia política do capitalismo congenitamente supunha.

Mas antes de tudo é preciso tornar tudo isso uma cultura. Isto é, um dado com valor de concepção universal. Por isso, a noção de regularidade matemática sairá da esfera da percepção do espaço e do tempo para se ampliar rumo a uma revolução na percepção global da natureza. O esquema tirado da observação do movimento dos astros é a ele devolvido como noção geral, e surge assim a idéia moderna da natureza como uma grande engrenagem, um fantástico modelo matemático, que o relógio e o mundo do trabalho apenas copiam.

É a ciência moderna, a astronomia e a física, mas também a economia, nascendo como formas de saber baseadas num mesmo pressuposto: a lei, concebida como relação matemática de regularidade rigorosa.

De Descartes a Galileu Galilei e a Isaac Newton, isto é, do Renascimento ao Iluminismo, vai sendo instituída a essência da modernidade. E em toda sua linha discursiva. O espaço-tempo cronométrico. A lei de valor universal. A objetividade de cunho natural. A realidade como coisa dada. A lei científica. A relação matemática apresentada como objetividade intrínseca aos fenômenos. A relação quantitativa -- regular, constante e matemática -- vista como uma lógica interna às próprias coisas. A relação que fornece a possibilidade, pelo seu conhecimento metódico, da intervenção controlada do homem sobre a natureza. A objetividade imanente ao fenômeno. A Física-matemática. Que também é Economia-matemática. A globalidade abarcante de todos os elos da vida, do cotidiano ao mundo do infinito. Um mundo homogêneo e único, do nível micro da manufatura ao nível macro do cosmos.

3. Ciência e técnica: o ardil da razão metafísica

Uma grande revolução cultural, eis a essência constitutiva da modernidade (não cabe distinguir aqui moderno, modernidade e modernismo) A cultura da regularidade métrica. O domínio infernal da maquininha (do homem ao relógio). O tempo universal e indiferente ao instante e ao lugar (tempo que já não conseguimos imaginar de outro modo). O sistema disciplinar mental e material do trabalho e do trabalhador que implanta e sustenta a economia do capitalismo. O mundo regulado por inteiro pela lei científica.

Falta um longo capítulo constitutivo ainda.

Do Iluminismo chega-se à revolução industrial. À revolução técnica que dá forma e corpo territorial à modernidade.

De início, a técnica evolui em paralelo à ciência. Mas converge para o mesmo fim de organizar o mundo no fundamento globalizante da razão. Nesse período inicial, ciência e técnica agem em momentos desiguais e formas diferentes. É pois abusivo dizer-se que a técnica surge como conseqüência do uso prático da ciência. O relógio, expressão da metafísica universal, é nesse momento o elo específico da união. A razão totalizante na forma do artefato, que em seu nome metrifica e une por trás das aparências a diversidade do mundo.

É ciência que usa do relógio, a técnica, visando instrumentar a construção disciplinar do trabalho. E move-se na intenção de ser para a sociedade capitalista em formação o olhar que mostre que a lógica que funda dentro da manufatura o movimento disciplinado do trabalho é a mesma em que o mundo como um todo é regido. O conhecimento que legaliza a ditadura do relógio e a regulação disciplinar do capital como uma lei natural. A forma de espaço-tempo destinada a servir à instauração da nova ordem econômica e à sua formulação teórica, uma ordem não por acaso fundada na teoria do valor-trabalho, mas como uma forma de cultura.

Quer isto dizer que o capitalismo está surgindo como um sistema organizado a partir e com base em raízes econômicas, mas raízes estas que só podem surgir porque encontra-se já fundado um hábito cultural, mentalizado como natureza natural, de relação métrica do trabalho. Porque dispõe, já, da metanarrativa que é o seu pressuposto: a cultura cronométrica do trabalho. Que a economia moderna se institui de início sob a forma da cultura do trabalho. E que só a seguir aflora como relação de conteúdo definidamente econômico (leitura que questiona a noção simplista de que a economia é uma coisa e a cultura outra coisa, e, mais ainda, de que a cultura vem depois, como um mero reflexo do econômico).

Comprometida, desde o seu nascimento, com o projeto da instauração técnica do capitalismo, só com o tempo a ciência irá a ela se subordinar. Todavia, primeiro cuidará de sedimentar o seu pressuposto cultural, seu fundamento racional. E, nesta fase, é a criação da cultura do trabalho disciplinar quem dá o ritmo do desenvolvimento da técnica e do novo sistema econômico.

A fusão só ocorre na fase da segunda revolução industrial. É quando capitulação da ciência se dá, levando a capitular a própria cultura ao primado da técnica, e a sociedade a subordinar-se como um todo à sua racionalidade.

Estamos no auge da modernidade. O momento em que, com a técnica espacialmente materializada, as metanarrativas viram realidade empírica e o universal conceitual realidade planetária. Então, tudo passa a ser revolução industrial. E a ética, a arte, a ciência, a economia, viram, todas, modos de ser da razão técnica. Momento em que, pelas mãos da técnica, a verdade universal das metanarrativas entra em cada casa da superfície terrestre. Planetariza-se. Dissolve, ali onde chega, a cultura local e instala a sua. Reculturaliza os lugares no conceito de tempo métrico, de natureza físico-matemática, da lei científica como conceito de valor universal, globalizando os lugares na razão metafísica. E o relógio mecânico materializara-se então como instrumento disciplinar do trabalho em todos os cantos do mundo.

4. O (a)pós-moderno

A modernidade é portanto a realização empírica, por fim, passados tantos séculos depois, do discurso dos universais metafísicos da filosofia clássica. A empiricização em espaço real, "empiricização do tempo pela técnica", no dizer de Milton Santos, das categorias do tempo e do movimento que o renascentismo mais a frente resgata da filosofia clássica, para, pelas mãos da revolução científico-técnica, constituir o moderno e a modernidade.

Uniformizando os espaços mundiais pela sua uniformização técnica, a revolução industrial, a segunda principalmente, faz do tempo-relógio e da lei da gravidade, tempos reais e movimentos reais (não poderíamos dizer o mesmo do recurso cartográfico dos fusos-horários e outros tantos recursos modernos com valor de "leis gerais"), dando apalpabilidade, dimensão de carne e osso reais, aos universais metafísicos de Platão e Aristóteles.

E não mais que isso é a globalização. O velho discurso metafísico dimensionado como empírico-real em escala planetarizada.

Neste momento entretanto, que, por meio da história do capitalismo, a idéia metafísica do valor universal ganha materialidade e empiricamente se concretiza, fecha seu ciclo e entra em crise a fase da modernidade.

A universalidade da força da gravidade é contrariada pelo muito pequeno da física quântica. Partículas de corpos de massas desprezíveis, que não seguem leis de movimento regular e constante, obedecendo antes a deslocamentos erráticos, sem direção definida, e que levam a uma concepção de mundo a um só tempo de ordem e desordem, de cosmos que é caos(mos). Cai um universal.

Do mundo inorgânico, a revolução quântica se desloca para o orgânico, dá origem à biologia molecular e amplia o arco da des-ordem, do caos como forma do mundo. Cai outro universal.

Não podendo passar ao largo de tantas transformações a ela referidas, os matemáticos, convalidam a teoria dos fractais, incorporam a nova forma de percepção, e fazem da teoria do caos a essência de uma nova matemática. Cai mais um universal.

Mobilizada, a filosofia olha de frente o pensamento emergente no mundo da ciência, analisa-o olhando-o do campo da arte, mais particularmente da arquitetura e das artes plásticas, e enfim dá-lhe um nome do novo: o pós-moderno.

5. A "pós-modernização" flexível do mundo do trabalho globalizado

E é sob esse molde que a novidade chega por fim à economia. O último dos universais.

Casando com a informática, a nova ciência desemboca na engenharia genética, a biotecnologia moderna. E, como nova ótica, se materializa como técnica e por meio dela se introjeta na raiz da organização econômica. Vestida nessa forma, se institucionaliza como mundo do trabalho. Tal como sucedera com a organização da natureza, o trabalho se atomiza, ganha regras novas de regulação, chamada flexível. A nova linguagem fala palavras estranhas do tipo TQC, CCQ, JIT, expressivas de uma nova economia política.

A base da revolução é o computador, uma máquina binária que funciona por fluxos de informação e por isso opera num espaço-tempo pulsátil, o espaço-tempo das coisas móveis, efêmeras, fluidas, semelhante ao tirado da percepção de natureza estruturada no código genético e na biologia molecular.

Surge a economia do pós-moderno: a regulação flexível. E finda o moderno com sua regulação rígida.

Em sua evolução, o capitalismo tornara-se um sistema contraditoriamente a um só tempo fluido e rígido. Mercê da especialização, implícita na regulação taylorista, moveu-se no conflito de uma potencialidade incrivelmente alta de expansão e um horizonte paradigmático estreito. Um paradoxo pleno de crise: o impulso fordista que aí se alimenta, leva o sistema ao desbarato dos fundamentos; a rotina fatigante do trabalho, ao desgaste e à neurose da classe trabalhadora (situação que Chaplin duramente denuncia em Tempos Modernos); o acúmulo de peças defeituosas em número crescente, à tendência da queda da produtividade e alta do custo persistentes, que o capital só a duras penas reverte. Só quando a tecnologia da microeletrônica advém, propiciando a flexibilidade produtiva do sistema (o computador é uma máquina autoreprogramável) e a refusão integrativa dos aspectos intelectual e manual do trabalho, o problema pode então ser encaminhado. Trocou-se a regulação taylorista (rígida) pela regulação toyotista (flexível), pondo-se fim a toda uma era de economia política. Morreu um mundo do trabalho baseado na unidade, no padrão, na totalidade; nasceu um outro baseado no efêmero, no fluido, na diversidade, os parâmetros do pós-moderno.

Um processo há tempo previsto pela arte.

6. Um tanto de real, um muito de semântico

Num simbolismo desafiante, pois foi onde o discurso moderno começou, é a arte quem primeiro detecta a crise da modernidade, e onde, não por acaso, o pós-moderno nasce e cresce.

Antena da sensibilidade, e não da razão, a arte lê o mundo através da linguagem da representação espacial (situação que divide com a geografia). É quem enfrenta a dificuldade maior de captar e representar as mudanças do conteúdo. E busca resolvê-la, mudando freqüentemente de estilo.

Estado eterno na história da arte, a mudança de estilo se torna uma constante a partir dos fins do século passado, quando a segunda revolução industrial imprime às transformações técnicas uma aceleração que não pára. Desde então, mal um estilo surge, e já outro o supera. Uma corrida incessante, no fundo, da linguagem da representação espacial para manter-se contemporânea do movimento de mudança do tempo.

A pintura impressionista é o primeiro momento desta fase. E o primeiro indício manifesto do fim da modernidade. A reação do público, negando-lhe qualquer valor artístico, é o melhor termômetro. Culturalizado na linguagem de representação espacial já institucionalizada, a clássica do espaço-tempo renascentista, o público de arte age de modo conservador, acha a representação impressionista ilógica, não artística, incompreensível. Só mais tarde se dará conta do seu significado: a luta tenaz da arte, a escultura, a música ou a arquitetura, no caso a pintura, para criar a forma de representação espacial que dê conta do ritmo de transformação dos conteúdos reais da história acelerado pelas novas tecnologias. O artista, ao contrário, percebe a defasagem da forma diante da transformação do tempo, manifesta-a na criação da nova linguagem e saboreia a multiplicação dos estilos (desde 1874, ano da primeira exposição impressionista, tão veloz, que por ela se pode acompanhar a marcha de mutação técnica das sociedades industriais modernas). Se o impressionismo é um momento de estupefação, o surrealismo é o de solução radical e a pop-arte mais radical ainda. A repetitibilidade da mesma imagem na seqüência de fotos de Marilyn Monroe, de Andy Warhol, tentando, tanto quanto a colagem, registrar pela seriação (ou pela superposição visual) uma temporalidade que teima em não se enquadrar em nenhuma forma permanente de representação espacial, equivale a um discurso pós-moderno.

O cinema, a forma de arte por excelência de nosso tempo, resplandece de filmes expressivos dessa ótica. O Exterminador do Futuro, 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Caçador de Andróides, filmes passados num mundo técnico pleno de objetos biotecnológicos e novas regras de trabalho, são cenários pós-modernos. Aqui, reina a percepção caótica do espaço-tempo típico da terceira revolução industrial, o relato ficcional do inesperado, ocasional, efêmero (não por acaso o pós-moderno é uma época de ficção científica revigorante). Arte do fantástico, ao tempo que declara mortas todas as metanarrativas (temos a sensação depois dos filmes da crise e ruína de todas as referências), o cinema coloca diante de nós a velha indagação moderna de para onde o mundo vai. E como quem melhor discursa sobre nosso tempo é a ficção científica, a extrapolação de nosso mundo sem que dela saiamos, sua linguagem de intertextos e livre de controles (não é o inesperado o que faz o vigor da ficção científica?) é quem melhor nos faz pensar sobre o mundo (numa ironia espetacular, no momento em que a própria crítica pós-moderna decreta a morte do sujeito e do projeto, os filmes de ficção científica trazem de volta a utopia, uma utopia resignada e conservadora, mas que reaviva em nós as sociedades utópicas sempre eternamente tão desejadas).

Um dado recorrente sempre se ressalta entretanto nesses discursos pós-modernos: o problema da regulação e do controle. O único dos universais da modernidade não sucumbido.

Eis porque a televisão é a maquininha de nosso tempo. Dublê de controle e catarse, por um lado é controle estrutural dos homens, mas por outro é cinema. Nela se revela a própria ambigüidade pós-moderna: é controle e porta de fuga.

Talvez seja este o lado mais ricamente proveitoso da crítica pós-moderna. Espelho de uma crise, que é mais do que econômica, porque dos universais (da razão, do pensamento globalizante, da ciência, das formas conceituais de representação, da cultura que desde séculos sustenta a performance das funções econômicas), o pós-moderno expressa-a como e através do que é mais humano no homem: a crise e desencontro da linguagem de representação espacial do mundo. Um convite a pensar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRADBURY, Malcolm e McFARLANE, James - Modernismo (Guia geral: 1890-1930),
Companhia das Letras, São Paulo, 1989

HARVEY, David - Condição Pós-Moderna (Uma pesquisa sobre as origens da mudança
cultural), Edições Loyola, São Paulo, 1990

JAMESON, Fredric - Espaço e Imagem (Teorias do pós-moderno e outros ensaios), Editora

UFRJ, Rio de Janeiro, 1994

LACLAU, Ernesto - A Política e os Limites da Modernidade, in Pós-Modernismo e Política,

Heloisa Buarque de Hollanda (org.), Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1991

MOREIRA, Ruy - O Círculo e a Espiral (A crise paradigmática do mundo moderno), Cooautor/Obra Aberta, Rio de Janeiro, 1993

MUMFORD, Lewis - Técnica y Civilización, Alianza Universidad, Madrid, 1992

SANTOS, Milton - Técnica, Espaço, Tempo (Globalização e meio técnico-científico
informacional), Editora Hucitec, São Paulo, 1994

TOURAINE, Alain - Crítica da Modernidade, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1994

Um comentário:

Gustavo disse...

"cultura que desde séculos sustenta a performance das funções econômicas"

Para mim, neste artigo o Rui ta tendo uma postura pos-moderna...
dizendo que é a cultura que sustenta as condições materiais. Na Ideologia Alemã, Marx, coloca que as condições materiais que sustentam as ideias. Existem vários exemplos confirmando isto: 1) No final do filme Ladrões de Bicicleta o protagonista rouba a bicicleta devido as condições materiais do momento... 2) Um mendigo que caça comida no lixo, apesar dele não ter aquilo como ideal de vida para ele... as condições materiais... 3)etc

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