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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Jefferson Simões: Verdades sobre Aquecimento Global

Scientific American
Ano 6 – N°62
Julho de 2007

Entrevista

Jefferson Simões

O homem do gelo

Glaciólogo gaúcho revela que o derretimento do gelo na Antártida é insignificante e que, em razão do aquecimento global, a camada de gelo no interior do continente pode até aumentar. POR DANTE GRECCO

Cenários venezianos povoam as noticias sobre o aumento do nível dos mares em decorrência do aumento da temperatura. No entanto, Jefferson Simões, o primeiro glaciólogo brasileiro, afirma que, quando se trata do derretimento do gelo da Antártida, não temos motivo para preocupação. “A Antártida tem 25 milhões de km de gelo. Se tudo derretesse, o nível do mar aumentaria cerca de 60m. Mas fique tranqüilo, pois não há como isso ocorrer devido a um aquecimento global originado pela atividade humana”, explica. “Aliás, por enquanto, não temos evidências cientificas de que um derretimento total do manto de gelo antártico tenha ocorrido pelo menos nos ultimos 10 milhões de anos”. Mas atenção: o perigo pode vir das geleiras.

Scientific American: O gelo da Antártida está realmente derretendo em razão do aquecimento global?
Jefferson Simões: Não. Cada vez que é divulgada uma noticia sobre o impacto do aquecimento global nas regiões polares há uma grande confusão na mídia. Os jornalistas esquecem que a Antártida é um continente onde ocorrem climasdiferentes em regiões separadas por milhares de quilômetros. O manto de gelo que cobre 99,6% de sua área tem uma espessura média de quase 2 mil metros e máxima de 4.776m. E a maior parte não está em fusão, muito pelo contrário: a temperatura varia entre 25°C e -35°C, e outra porção considerável está a -70°C!

Sciam: Então de onde vem essa confusão?
Simões: Na Antártida, há basicamente duas áreas bem distintas em relação ao clima. Uma é esse grande manto de gelo antártico. A outra área é formada pelo gelo da Península Antártica e ilhas ao redor do continente. Lá sim, a neve e o gelo estão perto do ponto de fusão. Um bom exemplo são as geleiras ao redor da Estação Antártica Comandante Ferraz, que fica na Ilha Rei George. Elas estão apenas -0,5°C de temperatura. Esse gelo está derretendo e perde massa rapidamente. É uma quantidade ínfima de água que escoa e, se não congelar novamente ao entrar em contato com o resto da neve e do gelo, vai para o mar.

Sciam: Esse leve derretimento terá alguma influência no nível dos mares no futuro?
Simões: Até 2100 esses 0,05% de gelo antártico que podem derreter deverão representar aumento de apenas 10 cm no nível dos oceanos. Mas atenção: a principal contribuição do derretimento do gelo do planeta, e que deverá impactar no aumento do nível do mar, virá do derretimento do manto de gelo da Groenlândia e das geleiras de montanhas nas regiões temperadas e tropicais. Em função disso, o nível do mar no final do século pode estar entra 50cm e 80cm mais alto. Apesar disso, essa não é a nossa principal preocupação.


Sciam: Qual é então?
Simões: Há fortes evidências de que uma parte da Antártida ocidental, ao sul da península, é muito instável e sua velocidade em direção ao mar pode crescer devido a um rápido aquecimento da atmosfera. Esse fenômeno levaria à formação de lagos na superfície do gelo e percolação da água até a base da geleira. Isso acontece quando a temperatura na superfície da geleira ultrapassa 0°C e a neve começa a derreter. Assim, a água que derreteu começa a escorrer entre as camadas de neve, através de fendas, atingindo a interface do gelo com a rocha. Nesse processo, o contato entre o gelo e a rocha seria lubrificado, aumentando a velocidade da geleira. Por definição, uma geleira é uma massa de gelo que se movimenta a uma velocidade de 800m a 1.000m por ano em direção ao mar. Caso isso ocorra, poderá causar um aumento do nível do mar entre 2m e 6m.

Sciam: Já houve algo parecido?
Simões: Um processo similar ocorre desde 1995 ao norte da Península Antártica. Lá, a Plataforma de Gelo Larsen perdeu quase 15 mil km² ao longo dos últimos 15 anos. Grande parte desse gelo nem teve tempo de derreter, mas se desintegrou em centenas de pedaços e formou vários icebergs gigantes com mais de 10 km de extinção. Essa desintegração ocorreu exatamente porque a neve na superfície derreteu, a água entrou pelas fendas e atravessou a plataforma até o mar.

Sciam: E o que acontecerá com o restante do manto de gelo, com exceção do derretimento do gelo na periferia?
Simões: Ele aumentará de espessura nos próximos 100 anos. Com o aquecimento global, a atmosfera Antártida terá mais umidade, e mais neve cairá e se acumulará no interior da Antártida. Eis um belo exemplo de retroprocessamento na Natureza. Essa massa colossal que cria seu próprio clima e é um dos principais controladores da circulação atmosférica e oceânica.

Sciam: Qual é a importância desse gelo antártico na regulação térmica do planeta?
Simões: O manto de gelo é o grande sorvedouro de energia do planeta. Ao lembrarmos que a circulação atmosférica e oceânica decorre do transporte de energia dos trópicos e subtrópicos para as regiões polares, o gelo do Ártico e da Antártida têm papel fundamental no sistema climático. Mas a Antártida tem um papel mais importante do que o Ártico em termos de circulação oceânica. Cerca de 80% da água do fundo dos oceanos, muito fria e muito densa, é gerada embaixo do gelo marinho e das plataformas de gelo, partes flutuantes do manto. O gelo marinho tem 1m de espessura e é formado pelo congelamento do mar. Plataformas de gelo têm entre 200m e 1.600m de espessura e são extensões do manto, que é formado pela precipitação e acumulo da neve ao longo do tempo.

Sciam: Como podemos comparar a situação da Antártida e a do Ártico?
Simões: As duas regiões polares são extremamente sensíveis às mudanças do clima, principalmente nos limites com as regiões temperadas, onde podemos observar as modificações climáticas recentes mais rápidas. As duas áreas apresentam destruição do ozônio estratosférico na primavera. Por outro lado, o Ártico é um mar congelado - a bacia oceânica fica abaixo de 2m ou 3m de gelo-, e responde mais rapidamente às variações do clima do que o enorme manto de gelo antártico. É por isso que sua área está se reduzindo rapidamente. Além disso, devido à proximidade de grandes áreas industrializadas da Terra, a poluição no Ártico já é um fato. Em algumas regiões ainda ocorre a neve ácida, ou seja, chuva ácida no estado sólido. A concentração de poluentes é, no mínimo, dez vezes maior do que na Antártida. Por tudo isso aquela região está mais ameaçada.

Sciam: E quanto às outras regiões do mundo, quais são os impactos causados pelo derretimento do gelo e d neve em razão do aquecimento global?
Simões: Aproximadamente 0,7% do volume de todo o gelo do planeta está derretendo, o que certamente contribui para o aumento do nível do mar. Mas essa fusão é proporcionalmente maior nas geleiras de montanha. Outra conseqüência importante é a perda de reservatório de água em alguns paises, como na Bolívia. Em La Paz, 70% da água vem do derretimento do gelo armazenado em geleiras. Se elas desaparecerem das montanhas, o reservatório ficará comprometido.


Quem é:

• Nascido em 1958, em Porto Alegre (RS), é geólogo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Obteve seu Ph.D. em glaciologia em 1990 pelo Scott Polar Research Institute (Cambridge).
• Leciona geociências e geografia das regiões polares na UFRGS. É pesquisador do CNPq e pós-doutor pelo Laboratoire de Glaciologie et Géophysique de I’Environnement (França).
• Criou o Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS, primeiro laboratório nacional de geografia polar e glaciologia. Participa do Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
• Participou de 18 expedições polares. No verão de 2004-2004 foi o primeiro brasileiro a participar de uma travessia da Antártida.




Daniela Marinheiro

Um comentário:

Edimar disse...

O Sr professor Jefferson Simões é o cara!!!!!!!

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